O desenvolvimento agrícola da região centro-oeste e as transformações do espaço agrário de Goiás

Introdução

J. de S. Martins trabalha com as concepções de frente de expansão e frente pioneira, para designar os movimentos de ocupação das áreas de fronteira. Faz, também, uma distinção entre fronteira demográfica e econômica, sendo que a segunda está sempre aquém da primeira, isto é, o povoamento do território precede a efetiva ocupação econômica do mesmo.

Na faixa entre a fronteira demográfica e a econômica que se desenvolve à frente de expansão, sendo ela caracterizada por “uma ocupação de agentes da ‘civilização’, que não são ainda os agentes característicos da produção capitalista, do moderno, da inovação, do racional, do urbano, das instituições políticas e jurídicas etc.” Sua economia é regida por uma agricultura de excedentes, sendo que a sobrevivência vem em primeiro lugar, e o excedente é destinado a trocas mercantis. Uma outra característica da frente de expansão é que a terra não possui valor de mercadoria, sendo essa frente marcada pelo uso de terras devolutas do Estado mediante ocupação, tendo como figura central o ocupante e o posseiro.

A frente pioneira é marcada pela propriedade privada da terra e pelo empreendimento econômico. Traz consigo empresas imobiliárias, ferrovias, comércios, entre outros. Nessa frente, a terra não é cupada, é comprada.

De uma forma geral, Martins define fronteira como “um local de descoberta e desencontro dos diferentes entre si, como os índios e os civilizados, e os grandes proprietários de terras e os camponeses”, por isso é que o autor caracteriza a fronteira como um local de conflito, e que, a partir do momento em que esse conflito deixa de existir, a região já não pode ser mais considerada com uma fronteira.

A abertura da fronteira agrícola na região Centro-Oeste

O desenvolvimento agrícola da região Centro-Oeste é intensificado a partir da década de 1930, com o objetivo de atender ao mercado consumidor de produtos agrícolas da região Sudeste.

A construção de Goiânia, na década de 1930, foi um marco na inserção do estado no processo de divisão interregional do trabalho e de interiorização do país, sendo considerada um símbolo governamental na inserção do Centro-Oeste na dinâmica capitalista nacional.

Apesar de no período em análise ter ocorrido uma reorientação do padrão de acumulação capitalista no país, passando de agropecuário para industrial, o estado de Goiás não acompanha a tendência da região Sudeste, pois continuou alicerçado na agropecuária.

Os obstáculos ao processo de integração regional do Centro-Oeste

A Estrada de Ferro Goiás teve suas obras iniciadas na primeira metade do século XX. Foi o primeiro meio de transporte que propiciou ao estado de Goiás condições reais de escoamento da sua produção para a região Sudeste. Porém os problemas financeiros e técnicos, em conjunto com a chegada da rede rodoviária federal na região Centro-Oeste, levaram a Estrada de Ferro de Goiás a assumir um papel secundário como um meio de transporte.

Até a década de 1950, o desenvolvimento das rodovias no estado ficava a cargo da iniciativa privada, dos governos estadual e municipal, não apresentando grande desenvolvimento, em razão da escassez de recursos para aplicar nessa área. Com a construção de Brasília, o contexto foi alterado, passando a ser de interesse federal o desenvolvimento da estrutura rodoviária do Centro-Oeste. Com esse objetivo, foram feitos grandes investimentos em melhorias e na construção de novas rodovias, visando atender às necessidades da nova capital do país e, com isto, consolidar a posição da região como fronteira agrícola e grande exportadora de bens primários para a região Sudeste do país.

A rodovia Belém-Brasília teve, também, papel relevante ao beneficiar as regiões localizadas mais ao norte do estado, proporcionando a essas áreas maior integração aos mercados das regiões Norte e Sul do país.

A conquista do Centro-Oeste: a dinâmica regional da fronteira agrícola

A expansão da fronteira agrícola no Centro-Oeste, que teve início na década de 1940, ficou mais conhecida como a “Marcha para o Oeste”, e seu principal objetivo foi atender à demanda de produtos primários, para a região que iniciava o seu processo de industrialização, a região Sudeste.

O Centro-Oeste, assim como outras regiões do país assumiram a função de amortecedores do caos social que foi gerado na região Sudeste. As fronteiras agrícolas se constituíram em verdadeiras “válvulas de escape” para os problemas populacionais gerados pelo processo de urbanização nessa região.

O estado de Minas Gerais foi o principal responsável pela migração para as áreas de fronteira em Goiás (veja a tabela abaixo).

Estados de origem dos migrantes para Goiás
Estado de origem 1940 1950
Minas Gerais 44,77% 53,32%
Maranhão 21,30 16,72
Bahia 20,66 15,74
São Paulo 4,63 5,41
Piauí 4,66 4,31
Outros 3,98 4,50

Nas décadas de 1950 e 1960, os pequenos produtores, que tomaram posse da terra no primeiro momento da abertura da fronteira agrícola, tiveram a função de desmatar e preparar a terra a um baixo custo para posteriormente ela ser apropriada por grandes fazendeiros, que se dedicavam à pecuária extensiva.

A primeira forma de ocupação, marcada pela presença de pequenos agricultores, pode ser considerada como frente de expansão, já a segunda, que assume a forma de grandes fazendeiros, é chamada de frente pioneira.

Ao mesmo tempo em que as fronteiras sul e central se fechavam no estado de Goiás, a região norte do estado mostrava um processo de abertura de fronteira. A partir de meados dos anos de 1960, o norte do estado passou a ser incorporado à fronteira agrícola, e grandes projetos agropecuários e madeireiros começaram a ser instalados nessa região.

É a partir da década de 1950 que o estado de Goiás começa apresentar um crescimento populacional que supera os números nacionais. O aumento populacional se deu, em grande parte, devido ao início da construção de Brasília e à abertura da rodovia Belém-Brasília, que foi inaugurada em 1959.

A consolidação da fronteira agrícola e a industrialização da agricultura no Centro-Oeste

O desenvolvimento da produção agropecuária do estado de Goiás, inicialmente, ocorreu de acordo com as necessidades do mercado consumidor existente na região Sudeste. A primeira atividade, que veio substituir o modelo de subsistência, foi a rizicultura. O arroz era plantado de forma tradicional e as condições naturais favoráveis, como o clima e o solo, facilitavam o cultivo.

No início da década de 1970, as políticas governamentais passaram a estimular a ocupação da Amazônia na esperança de que, em pouco tempo, pudesse se tornar importante região agrícola. Como isso não aconteceu, a princípio, o interesse governamental voltou-se novamente aos Cerrados, mais bem situados em relação aos crescentes mercados do Centro-Sul, marcando, assim, o início do desenvolvimento agrícola na região Centro-Oeste, apoiado por programas governamentais.

A consolidação do capital agroindustrial no Centro-Oeste e no estado de Goiás

Na década de 1980 a região passou a responder por 40% da produção nacional de grãos. No final da década de 1980 foram implantadas as primeiras agroindústrias na região, que tinham como principal objetivo o aumento da competitividade. O grande potencial de produção da região, em razão das suas condições climáticas favoráveis, atraiu o capital agroindustrial, consolidando um processo de integração de cadeias produtivas, mais especificamente, as cadeias grãos-farelosóleos e grãos-rações-carnes.

O Centro-Oeste aumentou sua área colhida de grãos em 10% e sua produção de grãos em 50% na década de 90 em comparação com a década de 80. Grande parte deste dinamismo se deve à soja. A área colhida de soja no Centro-Oeste aumentou de uma média de 36% nos anos 80 para 54% nos anos 90, substituindo em larga escala o arroz.

Luiza Maria Capanema Bezerra
Bacharel em Economia e Mestre em Geografia pela UFU
João Cleps Jr.
Prof. Dr. do Instituto de Geografia da UFU
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