Revolução e Contra-Revolução na Palestina: Da Partilha Imperialista à Vitória do Hamas

ANTECEDENTES HISTÓRICOS

Desde 1990, ano da primeira Guerra do Golfo, os EUA embarcaram em uma série de aventuras militares no assim chamado “tabuleiro euro-asiático”, definido como o corpo geopolítico do planeta, com centro político-militar no Oriente Médio.

No quadro da crise galopante da ex URSS (que seria dissolvida em 1991) e do chamado “bloco socialista”, o poder americano buscava garantir uma série de objetivos, mais ou menos definidos pelos seus gurus geopolíticos que, a exemplo de Samuel Huntington ou Zbigniew Brzezinski, pouco se caracterizam pela profundidade de pensamento: a) Conquistar uma posição hegemônica no processo de restauração capitalista, na ex URSS, na Europa do Leste e na China (The Economist, de Londres, chegou a afirmar, em 1999, que o alvo final de uma operação no Oriente Médio seria a China); b) Controlar, ou acentuar seu controle, das rotas estratégicas de fornecimento de recursos energéticos (petróleo e gás, principalmente) para todo o planeta — e, em primeiro lugar, para Europa e Japão — a partir dos principais países produtores, situados no Oriente Médio; c) Impor seu controle sobre a explosiva situação do Oriente Médio, isolando e condicionando, especialmente, o regime surgido no Irã com a “revolução islâmica” de finais da década de 1970; d) Influenciar e tutelar o processo de expansão da União Européia, em direção do Leste europeu e, em especial, da Ásia Menor (ou seja, da Turquia, pais muçulmano de 70 milhões de habitantes); e) Disciplinar o conjunto das potências capitalistas, em especial suas concorrentes “Europa” e Japão, através da chantagem militar, impondo uma posição militar dominante dos EUA nos pontos estratégicos do globo.

A primeira Guerra do Golfo tomou como pretexto a luta pela derrubada da ditadura de Saddam Hussein e a defesa da soberania nacional do Kuwait, invadido pelo Iraque (que, historicamente, sempre considerou o território do emir Jaber al Ahmed al Sabah como a 19ª província do Iraque). O pretexto não resistia a menor análise, toda vez que o regime do açougueiro de Bagdá era a própria criatura do imperialismo norte-americano (o próprio Saddam Hussein era denunciado como agente da CIA pelos movimentos nacionalistas e da esquerda árabe), e tinha sido abundantemente armado e usado pelos EUA e a Europa para conter a revolução iraniana, como fautor da guerra Irã-Iraque da década de 1980 (que deixou milhões de mortos). A “soberania nacional” do Kuwait não passava de um pretexto cínico, pois o país nunca passou de um enclave semi-colonial de propriedade familiar, propiciado pelo imperialismo no processo de descolonização do Oriente Médio, ou seja, carecia e carece dos atributos de um Estado nacional.

Em que pese as derrotas impostas ao exército iraquiano na operação “Tempestade no Deserto”, a “operação de polícia” de George Bush Sr. culminou num fracasso estratégico, pois o regime de Saddam se manteve em pé, e se transformou num fator de desestabilização de toda a região do Golfo Pérsico, ao mesmo tempo em que ele era desestabilizado pelo ressurgimento do movimento nacional curdo, também atuante na Síria, no Irã e na Turquia, países em que se divide a população desta “nação sem Estado”. O apoio dado a Israel para arrasar o movimento nacional palestino, em qualquer país do Oriente Médio em que atuasse, fracassou rotundamente, pois a guerra foi o marco da radicalização palestina e do nascimento da segunda Intifada.

A imposição de uma zona de exclusão aérea e o bloqueio militar, econômico e comercial imposto ao Iraque (que produziu centenas de milhares de mortos, especialmente crianças, num Iraque privado do acesso a medicamentos e gêneros essenciais) se transformou num fator de mobilização da opinião pública mundial, sobretudo nas próprias metrópoles imperialistas, contra a belicosidade ianque.

Guerra Infinita e Crise Mundial

A primeira Guerra do Golfo foi concebida, como dito, como uma operação de polícia internacional, teve cobertura legal da ONU, e se apoiou num amplo leque de alianças com o conjunto das potências capitalistas e com as burocracias “socialistas” contra-revolucionárias. A segunda, encabeçada pelo governo de George Bush Jr., foi concebida — depois dos nunca esclarecidos atentados de 11 de setembro de 2001 —1 como um degrau de uma estratégica “guerra infinita” contra o terrorismo. No governo de George W.Bush, foi emitida a Diretiva Presidencial nº 172 sobre Segurança Nacional, na qual os EUA assumiram, oficialmente, o direito do “ataque preventivo”. Os EUA passaram a ter o direito “legal” auto-atribuído de lançar mão de todos os meios necessários, os nucleares inclusive, para esse tipo de ataque.

A dita “guerra infinita” se apoiou numa aliança aos frangalhos com regimes direitistas da Europa (Blair e Berlusconi), eles também em completa crise política, e com alguns regimes fantoches do outrora chamado Terceiro Mundo. Quanto à ONU, ela foi reduzida, na melhor das hipóteses, a um organismo impotente, e na pior (mais realista) a uma caixa de registros (às vezes com algum protesto) das investidas militares do imperialismo anglo-ianque em qualquer ponto do planeta.

Segundo David Ignatius, “o famoso comentário feito por John Maynard Keynes, de que os economistas deveriam deixar de se preocupar tanto com o que acontecerá a longo prazo, porque a longo prazo estaremos todos mortos, não parece tão engraçado nos dias atuais. Mas, quando pensamos nos efeitos econômicos do episódio de 11 de setembro, é importante distinguir entre os efeitos de curto prazo — que foram devastadores — e as conseqüências a prazo mais longo, que podem ser bem diferentes. Muitos comentaristas expressaram o receio de que o episódio de 11 de setembro lance a instável economia global na recessão. Isso poderá ser verdade, a curto prazo. Mas não creio que essa psicologia deflacionária perdure — pela simples razão de que não há meio de os Estados Unidos e seus aliados saírem dessa confusão sem gastar muito dinheiro. A começar pelo pacote de estímulo da administração Bush, de reduções de impostos e novos gastos, que injetará até US$130 bilhões de dólares na economia no próximo ano. Acrescente-se a isso o custo da própria guerra, que, segundo o presidente Bush, poderá durar anos e levar ao deslocamento de tropas americanas para os mais diversos pontos do mundo. Acrescentem-se os bilhões de dólares que serão gastos com novas tecnologias destinadas a defender um público amedrontado do antraz e de outros horrores terroristas. Todos esses custos atingirão uma soma elevadíssima. Em outras palavras, guerras custam dinheiro. E a história nos ensina que as guerras tendem a ser inflacionárias e não deflacionárias. A longo prazo (com pedidos de desculpas a Keynes), um mundo mais seguro custará dinheiro: para cobrir o custo de sensores capazes de detectar a presença de antraz e outros venenos; de remédios para vacinar pessoas contra essas doenças; de dispositivos de segurança capazes de detectar redes terroristas e ajudar a frustrar seus planos. E, sim, para cobrir o custo de reconstrução nacional em países como o Afeganistão. Algumas dessas despesas terão um efeito multiplicador sobre a economia global como um todo. Afirma-se, com freqüência, que a 2ª Guerra Mundial pôs fim à grande depressão da década de 30. A única boa ação de Osama bin Laden poderia consistir no fato de ter colocado em ação as forças que porão fim ao grande colapso econômico de 2001”.3

As vitórias militares e o impressionante arsenal bélico posto em ação entre 1990 e 2005, não conseguiram nem conseguem ocultar o panorama desolador da estratégia político-militar dos EUA no Oriente Médio e na Ásia Central. Os regimes impostos (Iraque e Afeganistão) carecem da mais elementar estabilidade política e até do controle de seu próprio território; o Afeganistão não virou uma “democracia estável”: continua sendo um narco-Estado com duas ou três cidades dirigidas militarmente por fantoches norte-americanos, e o resto do país dividido por bandos em guerra, enquanto a fome e a miséria seguem endêmicos (claro que há uma novidade por lá além de um boom na produção de ópio: o número bem maior de bases militares dos Estados Unidos ao longo da rota do oleoduto e das zonas de interesse norte-americano pelo óleo e o gás da Ásia Central; sem falarmos em novas bases militares ao lado da fronteira chinesa); em vez de um progressivo isolamento e cooptação do regime iraniano, o contencioso com este se agravou (pela reabertura de três centrais nucleares, uma delas de enriquecimento de urânio), abrindo-se também uma frente de sérios choques com os aliados tradicionais dos EUA na região, em especial a Arábia Saudita (base, afinal de contas, da família Bin Laden, berço suposto do centro do “terrorismo internacional”); a falaciosa “democracia confessional” do Iraque — organizada pelos ocupantes, dos quais não passa de uma marionete — se evidencia incapaz de debelar a resistência armada contra a ocupação imperialista;4 no centro da crise, na Palestina/Israel, a situação é de desagregação política; a crise do Oriente Médio se projeta de modo multi-direcional como um fator de crise da Ásia Central, da Rússia e das ex repúblicas soviéticas, e, via Turquia, da própria União Européia.

Analisar a invasão do Iraque como uma operação de conquista do petróleo conduzida por um poder político vinculado aos negócios do petróleo, e que usa a “ameaça terrorista” como pretexto, é correto, mas não basta. Que razões levam Bush Jr. a ir mais longe que os anteriores presidentes dos EUA e a agir em bases políticas tão estreitas, por fora da ONU, numa ação tão ambiciosa estrategicamente (não somente contra Saddam, mas ameaçando o eixo do mal, que inclui uma Coréia do Norte que dispõe de bombas nucleares)?

Por que uma economia combalida e sufocada pela maior dívida pública e pelo maior déficit orçamentário do mundo, se lança a gastar muito mais com a operação de guerra do que os próprios ganhos que obteria com o petróleo iraquiano?5 Bush Jr. representa muito mais do que uma fraude eleitoral (ou um presidente com impulsos belicistas). O Iraque é o alvo do ataque, mas nem representa todo o alvo, e tampouco é o principal objetivo. As mobilizações mundiais contra a guerra certamente tem essa consciência: não se trata “apenas” do petróleo, nem das loucuras do pequeno Bush, nem da defesa, pelos EUA, de qualquer valor moral, civilizatório ou humano, mas de uma ação macabra de maiores proporções contra a humanidade trabalhadora.

O petróleo não explica tudo, embora explique uma parte importante. Os Estados Unidos vivem uma crise do petróleo, e marcham para uma escassez dessa matéria-prima no médio prazo. Se tivessem que depender apenas das suas reservas e da sua produção, seu petróleo acabaria em pouco menos de dez anos. Os EUA são o maior consumidor mundial de petróleo e, segundo Bush, “os países que produzem petróleo não gostam dos Estados Unidos”. Metade ou mais do petróleo consumido pelos Estados Unidos é importado. Como a dependência das demais potências — a exceção é a Rússia — é ainda maior (Japão, Alemanha, França, Itália dependem em quase 100% das exportações de óleo e a China é cada vez mais dependente) estamos diante de uma situação que faz pensar que dominará o mundo quem dominar o petróleo do Oriente Médio. As reservas internacionais de óleo estão concentradas em quatro áreas: pela ordem, as maiores reservas estão na Arábia Saudita (onde há relativo controle político americano), no Iraque, na Venezuela e na Ásia Central (ex-repúblicas soviéticas). As reservas de petróleo do Oriente Médio chegam a mais de 700 bilhões de barris contra uns 30 bilhões dos Estados Unidos. Com a queda da URSS, o Oriente Médio e as repúblicas petrolíferas da Ásia Central que pertenceram à URSS, passaram a ser a jóia mais cobiçada pelos grandes grupos internacionais dos EUA e da Europa.

Os EUA instalaram bases militares duradouras na Arábia Saudita, Turquia e Catar, como fruto da primeira guerra contra o Iraque. Antes da Guerra do Golfo, eram 10 as bases americanas na Ásia Central, agora elas são 22. Também tem a ver com a disputa do óleo o fato de que os Estados Unidos limitaram, nesses 12 anos, a autoridade política e militar do Iraque justamente ao norte (curdo) e ao sul (xiíta), através de bombardeios incessantes: ali, ao norte e ao sul, se encontram as maiores reservas de petróleo do Iraque. Dentro desse quadro, iniciativas como a de converter divisas de petróleo em euros (decisão tomada no seu momento por Saddam Hussein) certamente ganharam um significado importante.

E não apenas Saddam: na contramão da tutela que os americanos praticam sobre a Arábia Saudita (maior reserva mundial de petróleo) e da invasão do Iraque (segunda maior reserva), os maiores rivais dos EUA na Europa (Alemanha e França) estabeleceram acordos com o Iraque em torno do petróleo, acertando a compra do óleo em moeda européia (euro) e não mais em dólar, ao mesmo tempo em que a China e a Rússia também vieram firmando acordos com o Iraque. Ou seja, as segundas reservas mundiais de óleo, situadas num país onde as empresas dos Estados Unidos não podiam por os pés, ameaçavam vir a cair em mãos dos rivais econômicos dos Estados Unidos. E a própria Arábia Saudita — de onde saiu Bin Laden — já não é mais a mesma: ameaçou aumentar o preço do óleo. Os EUA vinham perdendo o controle do preço do petróleo.

Um estudioso do assunto julgou que “do ponto de vista da ação das transnacionais, o objetivo da invasão do Iraque seria afastar da região as empresas francesas, russas, chinesas, italianas e outras, que têm contratos de desenvolvimento no Iraque e no Irã, para que sejam substituídas por petrolíferas sediadas nos EUA como a Exxon-Mobil, a Chevron-Texaco, a Conoco-Philips, a Schlumberger ou a Halliburton”.6 O Secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, afirmou perante a comissão de relações externas do Senado dos EUA (em 6 de fevereiro de 2003) que “o sucesso da guerra no Iraque poderia fundamentalmente redesenhar a região de uma forma poderosa e positiva, que fortalecerá os interesses dos EUA”. Ocupando e monopolizando o óleo iraquiano, os Estados Unidos controlariam, em boa medida, o seu preço mundial, esvaziaram as pretensões da OPEP (dos venezuelanos, por exemplo) e ainda controlariam de perto e com mais eficácia, eventuais vôos dos sauditas para fora da órbita dos interesses americanos. Lembrando também que as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central — cobiçadas pelos Estados Unidos através da ocupação do Afeganistão — contam com potencial inexplorado de petróleo capaz, segundo alguns analistas, de uma vez mapeado, superar as reservas do Oriente Médio.

Osvaldo Coggiola
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